segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Wagahai wa neko de aru

"A autoconscientização das pessoas de agora é fruto do excessivo conhecimento da existência de um nítido fosso entre os interesses próprios e os alheios. À medida que a civilização avança, essa autoconscientização se aguça mais a cada dia. No final, tornamo-nos incapazes de executar naturalmente mesmo um esforço débil. 
Um certo Henley criticou Stevenson por este não poder esquecer de si mesmo um instante sequer e não sossegar caso não contemplasse sua imagem refletida ao passar em frente ao espelho de algum cômodo onde entrasse. Essa crítica exprime bem a tendência de nossos dias. Só pensamos em nós mesmos, ao irmos dormir, ao nos levantarmos, em todas as ocasiões reverenciamos nosso eu. 
Por isso, as ações e palavras dos homens tornaram-se artificiais, impacientes, asfixiantes. O mundo se tornou um local de sofrimento, onde vivemos de manhã até a noite nos sentindo como um rapaz e uma moça prestes a se encontrarem para um casamento arranjado. Calma e serenidade são palavras que perderam seu sentido. Dessa forma, o homem moderno é detetivesco. Possui a peculiaridade de um ladrão. 
Como o trabalho do espião é agir sem ser notado para obter bons resultados, é necessário que sua autoconfiança esteja fortalecida. O ladrão também nunca pode afastar da mente a preocupação de que será apanhado ou descoberto, o que o obriga a ter uma autoconfiança muito forte. As pessoas de agora passam todo o tempo à procura de uma forma de lucrar e nunca perder, por isso, assim como os detetives e ladrões, precisam ter uma sólida autoconfiança. 
O homem passa as vinte e quatro horas do dia agitado, e seu coração não encontra um instante sequer de descanso até o túmulo. É a maldição da civilização. Completamente estúpida.

Para quem, assim como eu, gosta de livros sem noção onde gatos têm pensamentos filosóficos e escrevem livros, uma boa dica: Eu sou um gato - Natsume Soseki

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