sexta-feira, 23 de julho de 2010

Almas Gêmeas

Ele havia terminado um relacionamento de quase dez anos, e não conseguia evitar a solidão. Ficava sozinho em casa, à noite, assistindo a televisão e desejando ter alguém para dividir sua vida.


Ela nunca havia namorado mais do que seis meses. No começo, achava que não havia dado sorte. Com o tempo, se convenceu de que o problema era ela. Mas não desistia, queria ter alguém.

Ele escrevia cartas de amor sem destinatário, pois não tinha coragem de escrever para alguma pessoa específica. Sabia que não queria apenas escrever as cartas, o que desejava mesmo era se apaixonar.

Ela sonhava em receber declarações de amor apaixonadas e surpreendentes. Não queria anéis ou flores: queria bilhetinhos escondidos no bolso da calça e encontrar um Sonho de Valsa na bolsa.

Ele ansiava em ter alguém com quem fazer amor todas as noites, e depois ficar conversando sobre a vida até adormecer. Queria acordar com alguém todos os dias, queria não se importar com o mau hálito.

Ela desejava mais que tudo dormir com a cabeça no peito de alguém. Queria ser protegida, cuidada, escondida do mundo em todas as noites. Queria acordar abraçada, sem vergonha de estar descabelada.

Ele queria construir a vida inteira ao lado de uma pessoa só. Aparelhos eletrônicos, casa própria, carro, a escola dos filhos e dar um cachorrinho de presente no natal, sem dever nada para ninguém.

Ela ardia de vontade de planejar as contas junto com alguém, na mesa da cozinha, no domingo à noite. Controlar gastos e saber que, juntos, estariam prontos para enfrentar qualquer problema no futuro.

Ele queria amar e ser amado.

Ela queria ser amada e amar.

Ele acordou aquele dia certo de que algo iria acontecer. Sentia-se diferente, como se sua vida fosse começar naquela quarta-feira. Sentia que tudo o que vivera até então havia lhe preparado para hoje.

Ela saiu da cama de manhã cedo se sentindo brilhante. Não sabia como explicar em palavras, mas, encarando o espelho, se achou linda como há muito não se achava. Sentia-se pronta para viver.

Ele fechou a porta do apartamento e caminhou até o metrô sem se preocupar em olhar para os lados. Sabia, a cada passo, que algo iria acontecer. Não era necessário procurar ou olhar. Ele seria descoberto.

Ela atravessou o jardim da casinha alugada e ganhou às ruas, sentindo-se confiante e otimista. Hoje era o dia decisivo. O Sol, as flores e os carros na rua lhe sopravam no ouvido que tudo iria mudar.

Ele desceu a escadaria do metrô assoviando, comprou o bilhete e caminhou até a plataforma, sem pressa. Não era preciso correr atrás do destino – sabia que o destino, hoje, estaria esperando por ele.

Ela entrou na estação cantando baixinho, puxou o bilhete da bolsa e foi esperar o trem no mesmo lugar de sempre. Desta vez, não olhou ao redor. Sabia que era o destino, hoje, que olharia para ela.

Eles entraram no metrô ao mesmo tempo. Sentaram-se e fizeram todo o trajeto até o trabalho. Trabalharam, almoçaram sozinhos. O dia se passou, e nada aconteceu. O destino não olhou, nem sorriu.

Eles voltaram para suas casas um pouco mais desesperançosos.

Cada um na sua cidade.

2 comentários:

  1. nossa que final inesperado - "cada um na sua cidade",gostei do texto! (:

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  2. Talvez, realmente o destino não se encarregue de tudo..ou quase nada. Temos que dar um empurrãozinho! =D

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