quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Confortável, amigo?

- Oi, com licença?
- Pois não?
- Será que você pode parar de me apertar agora, ou só quando eu for espremida para fora do ônibus pela janela?

Silêncio constrangedor. Pausa sugestiva. Recolher de pernas.

- Obrigada.


sábado, 1 de outubro de 2011

Coisas de Ônibus

Quinta feira. 17:15. Atrasada pra caralho.
Sento num banco escondido pra comer - ônibus vazio. Jardim Maria Lucia.
Ele se aproxima, com os cadernos, mochila e um celular pendurado no pescoço. Nove anos de idade, no máximo.

- Tia, dá um pouquinho? (Esse "tia" acaba com seu dia)
- Claro, pega aí.
- Tudo?!
- Aí não né! Também tô com fome. Se quiser mais pode pegar.
- "Brigado".

O ônibus anda mais 10 metros, e ele volta:
- Tia, dá mais um pouquinho?
- Senta aí, vamos dividir.

Silêncio de dez minutos.

- Tia, você mora aqui?
- Não, só trabalho. E você?
- Eu morava. Agora moro no Nova Esperança, mas venho na escola aqui. Onde você trabalha?
- No Posto.
- De saúde?
- É. Estuda em que série?
- Terceira.
- Hm. E você gosta?
- De estudar?
- É.
- Não. 
- E o que vai fazer quando crescer?
- Eu vou ser jogador de futebol *-* !
- Mas tem que estudar também.
- Claro que não. Jogador não precisa estudar, só treinar muito.
- Mas e se a vida de jogador não virar nada? Vai fazer o que?
- Vira sim, tia! Eu sou muito bom!
- Hm. Mas e quando você for um jogador muito rico, vai ficar burro, falando tudo errado?
- Ai, não quero pensar nisso agora. E você estudou muito pra trabalhar lá?
- Estudei. Não muito. E também não parei de estudar ainda.
- Ah, você é tonta. Casa com um jogador e fica tudo certo. Vai fazer o que? Ser professora?
- Não. Engenheira.
- Tia, não quero mais não. Pode comer.
- Tem certeza?
- Tenho. Vou descer ali, meus amigos tão esperando. 
- Tá certo. Boa sorte jogador.
- "Brigado".